Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) representam um compromisso global com um desenvolvimento mais justo, inclusivo e sustentável. Para acompanhar esse compromisso foram criados indicadores que permitem medir o progresso das organizações e dos países.
Mas medir não é um exercício neutro.
Toda a métrica resulta de escolhas: o que medir, como medir e o que fica de fora.
Penso que ao avaliar sociedades profundamente diferentes através de indicadores que não refletem a diversidade histórica e ancestral, social, económica e cultural dos contextos onde são aplicados tem como consequência um grave retrocesso...
Esta reflexão é particularmente importante em áreas como:
liberdade de imprensa, governação, inclusão, acesso à informação, desenvolvimento institucional e representação mediática.
Tomemos como exemplo a liberdade de imprensa.
Será suficiente medir apenas o número de jornalistas presos ou a existência de legislação sobre liberdade de expressão?
Ou devemos também considerar fatores como a inclusão e diversidade na cadeia de comandos da mídia global, a sustentabilidade económica das redações, a concentração da propriedade dos meios de comunicação, a dependência de financiamento externo ou as condições de segurança para o exercício da profissão?
A mesma questão coloca-se no domínio ambiental.
Há décadas que se fala da responsabilidade coletiva perante as alterações climáticas.
No entanto, os impactos do aquecimento global, das secas, das inundações, dos fenómenos El Niño ou dos eventos sísmicos não se distribuem de forma igual.
Diversos estudos mostram que muitos países com menores emissões históricas de gases com efeito de estufa enfrentam consequências particularmente severas das alterações climáticas, devido à sua maior vulnerabilidade e menor capacidade de adaptação.
Isto levanta outra questão.
Será suficiente avaliar uma empresa apenas pelas suas políticas ambientais internas?
Ou deveremos também medir o impacto que a sua cadeia de produção gera nos diferentes países onde opera?
A sustentabilidade não termina na sede da organização.
Começa precisamente nos locais onde se extrai recursos, produz-se, emprega-se pessoas e influencia comunidades locais.
Talvez o verdadeiro desafio da próxima década não seja apenas cumprir os ODS 2030 ou 50.
Talvez a capacidade de garantir que os indicadores utilizados conseguem refletir de forma mais ampla as diferenças entre territórios e sua diversidade, os impactos ao longo das cadeias globais de produção e as responsabilidades partilhadas entre Norte e Sul Global.
Porque aquilo que escolhemos medir acaba, inevitavelmente, por influenciar aquilo que escolhemos valorizar.
E aquilo que não medimos... corre o risco de continuar invisível.
